É impressionante como, quanto mais se produz tecnologia e se desenvolve a capacidade humana de produção de conhecimento (o que deveria diminuir a distância entre as pessoas), mais as relações humanas se desgastam e se distanciam. Pensar sobre isto sempre me traz à memória uma pergunta:
“Por que as coisas humanas são tão ruins, embora aleguem ser tão boas?”
No campo do Design e das artes digitais isto não é diferente.
Uma embalagem de lasanha, com seu hiper-realismo e excelente design gráfico, leva a uma compra que se tornará frustrante quando o consumidor constatar que a lasanha preparada por ele é uma massa disforme se comparada à da embalagem. Já nas capas de revista de moda ou dietas vemos corpos perfeitos, sem rugas, estrias, cicatrizes (nem mesmo poros na pele!), contribuindo (e muito!) para as angústias e decepções pessoais de muitas mulheres que buscam atingir uma condição física que nada se parece com a realidade. Tudo tem uma boa argumentação inicial e um resultado eticamente questionável.
E por falar em realidade, cada vez mais ela parece um conceito relativo. Hoje é praticamente impossível acreditar que as imagens dispostas em revistas, jornais e na Internet não tenham sofrido algum tipo de retoque digital. Na verdade, muitas delas são completamente criadas digitalmente. O “mundo real” não é capaz de expressar nossa argumentação digital.
O que está surgindo é uma realidade digital cada vez mais distante da realidade vivida. Criamos um sistema onde as coisas serem como são de fato não funciona. Tudo é substituído, corrigido e padronizado conforme valores de consumo e perfeição. Estamos vivendo uma versão da Matrix criada pelos irmãos Wachowski. Podemos ter cicatrizes, espinhas e rugas desde que nossa representação digital esteja livre dessas imperfeições.
Em meados do século XX o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto: “o que há de errado com o mundo?”. O escritor G. K. Chesterton respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:
Prezados Senhores,
Eu.
Atenciosamente,
G. K. Chesterton(*)
Ainda hoje não consigo pensar em uma resposta mais apropriada.
(*) Citado no livro Alma Sobrevivente de Philip Yancey, 2001 pág. 61
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