É impressionante como, quanto mais se produz tecnologia e se desenvolve a capacidade humana de produção de conhecimento (o que deveria diminuir a distância entre as pessoas), mais as relações humanas se desgastam e se distanciam. Pensar sobre isto sempre me traz à memória uma pergunta:
“Por que as coisas humanas são tão ruins, embora aleguem ser tão boas?”
No campo do Design e das artes digitais isto não é diferente.
Uma embalagem de lasanha, com seu hiper-realismo e excelente design gráfico, leva a uma compra que se tornará frustrante quando o consumidor constatar que a lasanha preparada por ele é uma massa disforme se comparada à da embalagem. Já nas capas de revista de moda ou dietas vemos corpos perfeitos, sem rugas, estrias, cicatrizes (nem mesmo poros na pele!), contribuindo (e muito!) para as angústias e decepções pessoais de muitas mulheres que buscam atingir uma condição física que nada se parece com a realidade. Tudo tem uma boa argumentação inicial e um resultado eticamente questionável.
E por falar em realidade, cada vez mais ela parece um conceito relativo. Hoje é praticamente impossível acreditar que as imagens dispostas em revistas, jornais e na Internet não tenham sofrido algum tipo de retoque digital. Na verdade, muitas delas são completamente criadas digitalmente. O “mundo real” não é capaz de expressar nossa argumentação digital.
O que está surgindo é uma realidade digital cada vez mais distante da realidade vivida. Criamos um sistema onde as coisas serem como são de fato não funciona. Tudo é substituído, corrigido e padronizado conforme valores de consumo e perfeição. Estamos vivendo uma versão da Matrix criada pelos irmãos Wachowski. Podemos ter cicatrizes, espinhas e rugas desde que nossa representação digital esteja livre dessas imperfeições.
Em meados do século XX o jornal London Times solicitou a diversos escritores que mandassem ensaios sobre o assunto: “o que há de errado com o mundo?”. O escritor G. K. Chesterton respondeu mandando a carta mais curta e direta de todas:
Prezados Senhores,
Eu.
Atenciosamente,
G. K. Chesterton(*)
Ainda hoje não consigo pensar em uma resposta mais apropriada.
(*) Citado no livro Alma Sobrevivente de Philip Yancey, 2001 pág. 61
Publicado em: Conceitos, Sábado, 29th Setembro, 2007 às 12:43 pm
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O que são feeds RSS?
Outubro 11th, 2007 às 2:51 pm
Eu sou a favor das relações pessoais sem o intermédio do computador e apesar disse tenho convicção que a era das relações digitais/virtuais é iminente.
É difícil dizer como será no futuro, se é bom ou ruim o rumo que isso está tomando. E discutir o que é realidade não é tão simples. Pode ser que existam muitas realidades…
Como designers devemos entender esse novo meio de relações e saber andar pelos dois opostos.
Uma frase de André Parente, que me faz refletir sobre o outro lado da questão (o que eu não aprecio muito):
“O virtual não remete a um para além do real, mas a uma vontade (ou não) de constituição do real enquanto novo”.
Outubro 15th, 2007 às 5:41 pm
Flávia
Acredito que o ponto seja exatamente este, as relações humanas.
Neste século XXI marcado pelas relações por meios digitais, sinto que tem havido muito pouca preocupação com as implicações do desenvolvimento tecnológico na interação humana por meios digitais. Afinal qual o objetivo de tantos avanços?
Realmente acredito que possam existir muitas “realidades”, mas em um mundo marcado pela ação do homem, me pergunto: Em qual dessas realidades a falta de preocupação e cuidado com o que é humano é aceitável?