O trabalho de um designer é pautado, de maneira geral, pela pesquisa e por um projeto estruturado, gerando como produto, entre outras coisas, conforto, resistência, beleza, funcionalidade e sofisticação. Existe a expectativa de se encontrar no projeto desenvolvido, além de um trabalho realizado com qualidade e competência, também o repertório e a “assinatura” do designer. Porém ultimamente, até mesmo em função das novas mídias e da quase instantânea distribuição do que se produz de cultura e arte no mundo, temos visto pouca diferença de projetos realizados no Brasil ou nos Estados Unidos e Europa.
Não pretendo aqui analisar o design brasileiro (este pode ser assunto para um outro post), e sim refletir sobre autenticidade e singularidade. O blog Smashing Magazine traz amostras de profissionais de todo o mundo na coletânea “Creativity Spark From Masters Of Illustration”. Trabalhos realmente incríveis, porém, salvo poucas exceções, com características semelhantes. Como entender que profissionais e empresas tão distintos, localizados em diversos lugares do mundo, produzam trabalhos tão semelhantes?
Uma grande preocupação com o desenvolvimento de uma estética globalizada pode ser percebida em boa parte do que se produz nas artes visuais hoje, e isto pode ser uma das causas para tantos projetos com traços tão similares. É como se todos estivéssemos compartilhando das mesmas vivências, do mesmo cotidiano, e que pessoas tão diferentes ao redor do mundo partilhassem do mesmo e único contexto.
O que torna autêntico o trabalho e marca a “assinatura” de um designer e de boa parte dos profissionais que trabalham com criação e artes visuais é o seu repertório, e isso não se resume a sua formação técnica e suas referências dentro da sua área de atuação, mas sim à sua bagagem cultural como um todo, sua experiência ao longo do tempo e sua vida cotidiana. Render-se à produção orientada apenas por influências e tendências de mercado leva apenas a realizações superficiais e repetitivas.
A dupla Os Gêmeos, que saiu do graffitti praticado nas ruas de São Paulo para galerias de arte em países como Alemanha, França e EUA, saiu das origens com a influência do hip hop para a criação de um estilo pessoal inconfundível, caracterizado pelo uso do traço fino nos desenhos. Outro exemplo é o diretor de cinema Tim Burton, que no início de carreira chegou a trabalhar para os estúdios Disney, e ao longo de sua trajetória desenvolveu trabalhos marcados pela influência dos filmes de terror clássicos e do expressionismo alemão. E o que dizer sobre o designer Alexandre Wollner, pioneiro dentre os designers brasileiros que, por conta de sua formação na escola de Ulm, na Alemanha, dentre outros fatores tem um estilo funcional e geométrico, cujo trabalho é caracterizado pelos cálculos matemáticos, a proporção áurea e a seqüência de Fibonacci.
Por fim, o que destaca um profissional de outro no momento da realização de um projeto não é o que ele sabe fazer tanto quantos os outros, mas sim o que ele faz de diferente, o que ele tem de único. Mais do que apenas perpetuar o que tem sido realizado pelos quatro cantos do mundo, o profissional de design, se quiser desenvolver projetos com um estilo característico e autêntico, deve buscar imprimir em seu trabalho o seu cotidiano, a sua vida, suas crenças e suas expectativas, e não apenas, por uma questão de globalização, “internacionalizar” seu trabalho ou mesmo utilizar uma série de informações acumuladas em forma de referências, que não passam de acúmulos de dados sem relação real com sua vida.
Mais:
Os Gêmeos
The graffitti project
The New Times
Alexandre Wollner
Cosac Naify
Tim Burton
IMDb